Luau Drey

Luau Drey
...

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Eu acredito num partido político.


Desde os 16 anos eu voto no mesmo partido. Durante algum tempo fiz alarde sobre. Era tão cheia de razão nas minhas convicções, que defendia "a causa" de forma ferrenha. Passei também pela fase da dúvida, da decepção, do orgulho e da falta de esperança. Você vai envelhecendo, ponderando e silencia. Ri dos ignorantes, lamenta pelos sábios. Sim, porque há sábios que não votam no mesmo partido que o seu.
Já fui taxada de baderneira e ouvi algumas vezes a palavra "agitadora". Já fui demitida! Já fui indagada e pela resposta não fui contratada. Senti vergonha, questionei o fato de brigar pelo que acredito, li, pesquisei seria mesmo o melhor caminho a seguir. Parei. Ou melhor, recuei. Ninguém gosta de gente assim! Os bois de presépio, os puxa sacos, os covardes e os ignorantes que conseguem a promoção, são convidados para as festas, ninguém olha torto ou comenta.
Tentei por horas a fio explicar que voto num partido, não numa pessoa. Política é algo coletivo. E? Inaceitável que no Brasil ou em qualquer país do mundo não se entenda o que significa política, na sua origem e semântica. Exatamente. Dê um Google e em algum momento lerá coletividade. Eu optei não apenas por viver isso, mas sim participar disso. O que me torna diferente? Sim, eu sou uma sonhadora e ainda acredito!



sexta-feira, 16 de setembro de 2011

FAST FOOD



Por que nós mulheres, após irmos para a cama com um homem, temos a sensação que ele liga menos para nós?
Talvez seja coincidência, neurose, insegurança, mas também não pode ser verdade? Não pode o dito cujo ter conseguido o que queria e perdido MESMO o interesse? Ou não quer criar laços afetivos, não quer dar falsas esperanças, não quer namorar e nem ficar ficando. Ele só queria te levar pra cama e pronto. Qual o problema? Todos.
A sensação de ter sido "usada" para algumas mulheres é de detonar qualquer auto estima. Ela fica remoendo dias a fio o que teria feito de errado. Chupou de menos, gritou demais, foi culpa daquela barriga que, de lado, teimava em pender. Se sente chata, se sente feia. Será que foi algo que disse?
Jamais saberá. Muito provavelmente porque o moçoilo em questão nunca irá dizer C-L-A-R-A-M-E-N-T-E que ela ficou chata sim e aquela barriga na hora em que estavam conversando, depois do sexo, realmente o fez lembrar da professora gorda e malvada da 3ª série. Óbvio que ele também, nem sob tortura, confessará que só queria comê-la e preferia que ela nem ligasse mais, para evitar possíveis mágoas.
Muitas mocinhas, na ânsia de namorar ou mesmo de manter aquele casinho tão gostosinho começam a viver uma espécie de aprendiz de Glenn Close em Atração Fatal. Ligam de hora em hora, comentam TODOS os posts do menino nas redes sociais, até sobre futebol. Fazem surpresinhas que só elas acham legal, como aparecer no happy hour da empresa... DELE! E, caso o perseguido tente ignorar, prepare-se para frases cheia de ideias malvadas subliminares e posts recheados de indiretas que ela jura que ele entenderá e modificará seu comportamento. Doce ilusão. É mais fácil ele bloqueá-la. E homens não são tão bons assim (como nós) em frases com duplo, triplo, quadruplo sentido.
Sim, querida, durante 3 semanas vai martelar na sua cabeça porque o fofo não quis casar com você e ter filhinhos. E você se lembra de ter escutado a palavra casamento em mais de um momento. Esses momentos foram antes do sexo, claro. E a tal palavra foi dita sobre o evento da prima ou o filme "O Casamento do meu melhor amigo". Cada um vive a ilusão que quiser... Parecia um conto de fadas, mas a bruxa má tomou as rédeas da situação.
Como ele mudou , não? O que aconteceu com aquele príncipe encantado que a procurava insistentemente, deixava recadinhos lindos no seu Facebook e mandava sms no meio da tarde? Ele ficou na cama, flor!
Você também mudou! A garota interessante, divertida, que flertou com ele 15 dias virou uma perseguidora implacável, cheia de carências mal resolvidas e súplicas por uma continuidade. Tolinha.
O sexo foi uma delícia? Ótimo! Pelo menos você tem algo bom pra se lembrar, darling.
Esqueça-o, siga sua vida e comporte-se com alguma dignidade. O cara não é o último suco de laranja do seu café da manhã. É uma questão de tempo um outro rapaz se interessar por você e ser tudo diferente. Não fique se lamentando e procurando a sua falha. Não tenha medo de tentar de novo, de novo e de novo ou quantas vezes quiser. Eles não são todos iguais, acredite!

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

APENAS UM CONTO


Ele era baixo para seus padrões adolescentes de homem ideal. Mas aquilo pareceu não ter a menor importância já dentro do carro. O carro foi um episódio a parte. Tão surpreendente que a fez sentir-se especial. Sabia o quanto aquele veículo era importante e sentiu-se quase na mesma equivalência por estar dentro dele. Conforme ele contava de suas viagens e preferências ia ficando enorme perto dela. No fim da noite ele era o homem mais alto do mundo. E lindo. Tentava não olhar os olhos azuis, mas não conseguia. Desgraçadamente, lembrou da aula de genética que afirmava não ser muito comum olhos azuis em nosso país. E amava olhos claros. Tinha a sensação que de tão transparentes era possível enxergar o espírito.
Ela não conseguia comer, sentir o gosto da cachaça que compunha a caipirinha. Via os ponteiros do relógio dele e rezava em silêncio para que o tempo não passasse. Mas passava. Implacável, como sempre.
No apartamento sentiu uma vontade enorme de perguntar se podia dormir ali aquela noite. Percebeu a cama desarrumada... Algo desconcertante para ela. Herança de sua avó que afirmava que, se saíssemos de casa sem arrumar a cama, a alma não levantava. O quarto dela podia ser a maior babilônia já vista, com roupas espalhadas por todos os móveis, mas raramente saía e deixava a cama por fazer, mesmo que se atrasasse.
Teve vontade de beijá-lo inúmeras vezes, mas não o fez. Não por timidez ou receio, mas por medo. Medo de não encontrá-lo mais. Medo da magia terminar no encontrar de lábios. Medo de gostar muito. O mais incrível foi que o beijo não dado nem foi tão importante assim. Não se lamentou nem se arrependeu. Tinham tanto o que dizer um ao outro que um beijo naquele cenário talvez fosse perda de tempo. Talvez...
Como era de se esperar, sonhou com ele a noite inteira. Uma mistura do que tinha realmente acontecido com o que estava para acontecer e o que talvez jamais acontecesse. Ela tentando encaixar suas roupas no armário dele. No sonho, não havia lugar para os muitos pares de sapatos dela, e por isso começava a entrar em pânico por estar tirando a vida dele do eixo.
Ao acordar pela manhã deduziu que aquele sonho foi o choque inicial do apartamento de um homem solteiro ser tão minimamente o reflexo dele e surpreendentemente organizado. Os quadros na parede. Chegou a sentir vergonha. Se morasse sozinha há um ano, os quadros jamais estariam na parede. E, subitamente, lembrou-se que nem quadros tinha. Mas o mural de fotos, com certeza, estaria no chão.
Na ida para o trabalho repassava os segundos da noite anterior. Aguardava sua carona sentada na sala de sua casa, no mais completo silêncio. O livro emprestado, que mais parecia uma bíblia, estava dentro da bolsa. Abriu. Não leu a contra capa. Com essa publicação sairia dos seus padrões de leitura. Iniciaria sem saber do que se tratava ou quem era o autor. A primeira palavra do livro era CULPA. Culpa... Parou ali. Ele lhe emprestara outros dois livros, podia não ler aquele. Mas, pensando melhor, por que não?
Sua culpa naquele momento era simplesmente não sentir culpa.

FIM

domingo, 7 de agosto de 2011

CRIANDO MACHOS DEPENDENTES

Eu sou mãe... O que por si só já dá um grande trabalho. Mas além de ser mãe, eu sou esposa, dona de casa, profissional liberal, escritora frustrada e uma mulher com muita, muita dificuldade de organização e concentração.
Sou cercada de machos por todos os lados: dois irmãos, filho, marido, pai, cachorro, dois chefes e, estranhamente, me sinto feliz por todos eles precisarem de mim de alguma forma. Nasci para cuidar. Sou apaixonada pela dependência masculina. Provavelmente, herdei isso da minha mãe. Uma adicta em dependência materna de filhos homens.
Ok. Não me julgue... Todos nós temos as nossas esquisitices. Quando engravidei, torcia secretamente para ser um menino. Me disseram que os meninos são apaixonados por suas mães. Se você for mãe, sabe do que estou falando. Mas também reconheço que somos as grandes culpadas pela possível falta de caráter da sua cria macho... E nem me venha falar, mamãe, que a culpa é das más companhias! Não se faça de desentendida! "Onde eu errei?" é uma pergunta desnecessária depois que você se der conta (quando ele tiver 54 anos) que seu filho não se tornou um homem com muitas virtudes.
Aos homens, saiba que é muito, muito complicado desde o momento da certeza da gravidez até o dia que morrermos. Disse uma vez ao obstetra que fez o parto de "Luccolovers", depois de tirar o bebê gorducho da minha barriga, despejou em mim um balde de culpa. Eu não sei vocês, mas sinto culpa por tudo em relação ao Lucca. Que é este garoto na foto acima, lendo (não é pra transbordar de orgulho?) na sua piscina de inverno, montada no meio da sala, com almofadas. (Em outro post conto o problema que causei ao postar esta foto e ser filha de um pai com TOC, que afirma categoricamente que há algum sequestrador lendo este blog e vendo a foto do menino. Já considera falar com meu tio que trabalha no DEIC para uma ação preventiva imediata. Por segurança, é melhor trocar as fechaduras. A gente sempre acaba na discussão do estrago que pode ser uma chave perdida, mesmo quando a conversa é sobre... samambaias. Viu? É bem difícil ser normal tendo crescido numa família como a minha). Eles culpam pelo excesso. De amor.
Bem, voltando à culpa inerente a minha pessoa desde o momento que Lucca chegou ao mundo, eu sinto culpa por ele ser magro, por ele não comer pepino, por EU não gostar de água- eu!! \o - não o Lucca que até bebe com certa frequência, mas não uma frequência boa o bastante para me livrar do pesadelo de me sentir a responsável genética por ele não tomar 18 litros de água por dia. E por tudo que ele faz de errado. O que ele faz certo eu costumo atribuir a uma graça divina e afirmo que Deus foi bom em me dar um filho tão calmo, inteligente e que raramente adoece. #louca

Tudo começa a ser motivo de preocupação: o meio ambiente, a poluição, má educação no trânsito, a qualidade do ensino no Brasil, as "Marias" (Chuteiras, Tatames, Gasolinas, Parafinas, Holofotes) que podem dar o golpe da barriga no seu rebento, o preconceito, bullyng, escolha da profissão (eu já escolhi a do Lucca!!) e milhões de outras amebinhas viróticas malvadas que atacam a mente de uma mãe #superlouca
Há um misto de vergonha em ser "fora da casinha" e orgulho em ter tanto amor dentro de mim. O mundo passou a ter um outro significado depois que me tornei mãe. Sinto que tenho mais sensibilidade, compaixão, generosidade, porque quero que sua cria cresça num mundo perfeito e não no mundo real. Também passei a ter sentimentos mais nobres. A me indignar mais com as injustiças.
Ser mãe te obriga a se colocar no lugar do outro. Te obriga a ter medo das possibilidades da vida. Mas te dá tantos sentimentos bons e em tanta quantidade que podemos compartilhar infinitamente. Confesso que me sinto louca às vezes... Numa TPM eterna de ternura, amor, ciúmes e posse. Longe de ser a mãe perfeita, mas totalmente neurótica por não ser.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O livro fala. A alma responde.

Há quase 1 ano abandonei meu blog... Fui tomada por um vácuo de boas ideias que me persegue desde a juventude. Por mais que eu tente, aquele momento criativo se nega a aparecer. Isso me angustia, me entristece, me faz pensar que, na verdade, eu não sei escrever bem. Nem mal. Simplesmente não sei mais escrever como escrevia na adolescência.

Comecei e ler cedo. Me recordo da estante de cerejeira na sala, com títulos diversos; de Machado de Assis a Harold Robins. Ainda morávamos em SP, era década de 70, mas a insegurança da metrópole já era uma preocupação e não me restavam muitas opções. Escrever veio logo depois, como se fosse uma consequência da prisão que a violência nos impõe. Aprendi ainda criança o poder das palavras. A transformação que um livro pode fazer na sua vida. Anne Frank era uma personagem recorrente da minha teoria sobre leitura e literatura.. Escondida por anos da perseguição nazista, escreveu um diário que se tornou um dos livros mais importantes do século XX. Eu o li com 12 anos e foi a primeira leitura que me emocionou por ser real e pela sensibilidade e poder que Anne teve de me transportar para o seu mundo triste e incerto. Quanto mais você lê mais quer ler e quanto mais você escreve, mais terá criatividade e facilidade para escrever.

Eu viajava nas estórias (sim, naquela época História era a de verdade o que realmente havia acontecido, por exemplo História do Brasil - eu sei que essa também não é de verdade, mas isso é assunto para outro post! Sonhava ser uma das mocinhas de Sheldon: fortes, impetuosas, lindas e ao mesmo tempo frágeis, como toda mocinha deve ser.

Daí veio o 2º grau e eu tive que ler os autores brasileiros e alguns portugueses. Nesse momento eu soube que eu gostava MESMO de ler. Qualquer coisa. Me pegava por longos minutos lendo a etiqueta da mostarda e sonhando com campos franceses, cheios de "flores de mostarda"(what??) e o quanto eu gostaria de conhecer Paris; e como eu poderia viver uma linda Estória de amor com um francês... Me apaixonei por Dom Casmurro, quis ser Capitu... Luiz de Camões insistia para eu gostar de poesia.

Foi nessa época que eu comecei a escrever poemas, cartas de amor, contos de terror, uma biografia maluca e fantasiosa de mim mesma e tudo que eu gostaria de falar, mas não tinha coragem. Então, escrevia. Foi aí que comecei a ser bem melhor escrevendo do que falando, pintando, andando, desenhando e respirando... Talvez tenha sido neste momento que eu desaprendi a me expressar de outra maneira.

Na faculdade começam a te direcionar. Você lê o que precisa ser lido. Algumas coisas você gosta, outras não. Outras você julga (mal), outras não. Algumas você analisa, outras... sempre! Na faculdade de Jornalismo, eu virei crítica. Todas as matérias, livros, artigos e textos eu me sentia apta o bastante para desenvolver minhas impressões e opinar como uma profunda estudiosa do assunto. Jornalistas são chatos. Estudantes de jornalismo são mais. Estão aprendendo a ser chatos.

Talvez tenha sido na faculdade que eu parei de escrever com o coração. Embora, eu lesse muito mais e escrevesse na mesma proporção, comecei a fazer isso com técnica. A magia se perdeu. Eu não escrevia mais com o meu eu e começou a se tornar muito mais penoso e difícil criar, levar um projeto adiante, agir por prazer, não por obrigação.

Com 18 anos escrevi um livro que nunca mostrei a ninguém. Um romance, uma ficção meio real do meu 1º amor. Ficou lindo, mas parecia muito com esses exemplares de banca de jornal. E a vida não é isso? Um exemplar romântico vendido em banca de jornal? A minha era.

O 1º amor nunca leu uma linha sequer. Acho que já estava cansado de tantas cartas românticas que eu entregava a ele, pessoalmente... E enquanto ele li minhas letras escritas com lágrimas, eu o olhava atentamente. Não para resolver a pendência emocional, mas sim para saber se as minhas palavras o tinham impactado da forma que eu queria. Na minha inocente juventude eu acreditava que o livro seria um best seller e ele se arrependeria de não ter lido antes que todo mundo. E com o sucesso de vendas do meu livro eu seria milionária, moraria em Mônaco e o 1º amor não teria crédito nenhum por isso. Ele ficaria aqui no Brasil e anos depois se arrependeria amargamente por não ter me amado.

Hoje, resolvi tentar de novo. Arrumar as ideias, deixá-las fluir, voarem pela minha consciência, ficarem palpáveis. Eu preciso recomeçar. Por que eu deveria abandonar meu sonho de ser uma grande escritora? Isabel Alende começou a escrever depois dos 40 anos... Nunca é tarde. Para sonhar, escrever, aprender e realizar. Eu ainda amo as palavras e tenho certeza que elas são eternas.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

PESSOAS INPIRADORAS & PESSOAS BRILHANTES


Conversava com uma amiga sobre a diferença entre pessoas brilhantes e inspiradoras... Cheguei a conclusão que as pessoas inspiradoras na minha vida, até então, haviam sido meus professores. Marcelo Ortiz: profº de Ciências e Saúde da 6ª série. Já na década de 80 ele ensinava Meio Ambiente, Sustentabilidade e preservação da natureza. Era, sem dúvida, um visionário.
Márcia Heloisa: profª de Sociologia e Filosofia do Magistério. Graças a ela eu li Dostoiévski, Nietzche, Thomas Morus e outros pensadores muito interessantes.
Dirceu, meu professor de História do Jornalismo, na Universidade. Ele me fazia acreditar na incrível força da Mídia e que tínhamos o super poder de transformação do mundo. Um sonhador, mas eu também era; então talvez me deixasse enganar.
Depois, listei as pessoas brilhantes que tive o prazer de conhecer: João Armentano (arquiteto), Saramago (em sua passagem por SP em 2008 - um dos maiores acontecimentos da minha vida), Milhen Cortaz (ator) e outras pessoas tão relevantes, mas não tão famosas quanto essas. Percebe que os brilhantes parecem mais inatingíveis?
De repente, por obra do destino, na mesma semana dessa conversa um tanto maluca conheci alguém muito inspirador: João Pepeu, o pedreiro leitor.
A empresa que eu trabalho está passando por uma cansativa reforma. São mais de 15 pedreiros para lá e para cá o dia todo. E nesse vai e vem, numa tarde logo depois do almoço, João se sentou ao meu lado no jardim com um livro de Agatha Christie nas mãos...
Até estiquei meu olho míope para me certificar que não era revistinha de sacanagem, com capa de autor famoso. Mas realmente era O Inimigo Secreto (1922).
Não queria interrompê-lo. Detesto que me interrompam quando estou lendo! Mas não resisti e engatei uma conversa. João é pedreiro desde os 14 anos. Hoje tem 49. É casado, tem filhos e netos. Só estudou até a 4ª série do Ensino Fundamental, mas tem um vocabulário surpreendente.
Me contou que empresta livros da biblioteca da escola do neto, pois "livros são muito caros!" Já leu mais de 200 publicações (nas suas contas) e não gosta de livros de auto ajuda e alguns autores que não vem ao caso, pois não escrevo aqui para fazer anti propaganda de ninguém. João também me disse que até gostava de Agatha Christie, mas achava muito "fantasisoso" (palavra dele!). Seu autor preferido, me disse baixinho, quase sussurrando: era Sidney Sheldon. Eu sorri.
Adoro Sidney Sheldon. Graças a Um Estranho no Espelho que me apaixonei por literatura. Com 9 anos eu já havia lido A Outra Face, O Outro Lado da Meia Noite, A Herdeira e a Ira dos Anjos - minha mãe também adorava Sheldon. Quando João me confessou isso quase como um segredo, me dei conta que talvez fosse vergonha para um homem daqueles gostar de romances. E percebi que eu também não falava da minha identificação com Sheldon para ninguém. Que bobagem, não?
Eu e João ficamos conversando por mais meia hora sobre Isabel Allende, Gabriel Garcia Marquez, Machado de Assis e tantos outros que eu queria ter ficado naquela conversinha o dia inteiro.
O homem ficou famoso na empresa. Todos comentavam sobre ele e, às vezes, eu escuto da minha sala os pedreiros gritando: - João! Pára de ler e vem trabalhar!!
Hoje, eu cheguei na empresa e João estava sentado na caçamba de entulho, lendo jornal.
Perguntei: - Lendo o que, João ?
- As páginas de política, né moça? A eleição está chegando e temos que votar direito. Depois que estão lá, daí é tarde pra reclamar!
Que vontade me deu naquele momento de mostrar João Pepeu ao mundo! Pensei nele como tiozinho propaganda da Bienal do Livro... Sonhei por ele, com uma quase compaixão, de tanto admirar um homem assim. Eu tinha o grande privilégio de conhecê-lo e me inspirar.
Uma inspiração súbita de escrever mais e então inspirar pessoas a lerem mais também. Porque eu também tenho que ler muito para escrever na mesma proporção.
Um livro tem o incrível poder de abrir horizontes, transpor fronteiras, de igualar, de exercitar o pensamento . Um livro liberta, transporta, seduz.
Sempre que me perguntam qual é o segredo para escrever bem, eu sempre dou a mesma resposta: leia! E se alguém, como João Pepeu, me fizesse esta pergunta, eu diria: sonhe!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

POLITIZADA

Sempre achei essa palavra bonita: POLITIZADA.
Meu pai dizia: "o pior ignorante é o ignorante político. Seja POLITIZADA.” E essa foi uma lição que eu aprendi muito cedo. Aos 8 anos ele me fez beijar a mão do Jânio Quadros. Aos 16 ele foi comigo tirar meu título de eleitor, que eu carrego, orgulhosamente, na minha carteira há alguns (muitos) anos...
Nunca concordamos politicamente. Ele sempre foi de direita, meio reaça e eu sempre fui uma garota "subversiva" (não adiantou nada beijar o Jânio). Mas hoje tenho certeza que ele adorava isso. Dizia sorrindo aos meus tios : "Luciana é uma comunista vermelha, comedora de criancinhas". E se divertia ao contar meu derradeiro destino se eu tivesse nascido algumas décadas antes: perseguida política, com absoluta certeza. E morreria nos porões do DOPS, pois ele não tinha recursos para me manter em Londres (em caso de extradição).
Seu Armando sempre tinha histórias para contar do regime militar. O medo dele de ser amigo de algum comunista disfarçado e ser preso. Do foco no trabalho para nem saber o que era política. E de como era difícil viver na ditadura. Como tudo tem seu lado bom, ele me dizia que na década de 60 os jovens eram mais engajados, lutavam por uma causa. Era divertido ler jornal e perceber que uma ou outra matéria havia sido censurada e no lugar estava uma receita de bolo. E que naquele momento não tínhamos censura na imprensa, mas na verdade ela estava disfarçada em todas as redações que sucumbiam a interesses políticos e econômicos deste país. Desconfio q ele já sabia que eu prestaria vestibular para Jornalismo alguns anos depois e cursei os semestres sonhando com um jornal revolucionário, mas muito criativo, inventando formas de burlar a censura (que já não existia mais), aliado a jornalismo inovador. Ele protestou por essa escolha, queria que eu fizesse Direito... Mas sempre demonstrou um interesse peculiar na minha caminhada pela Universidade. Quanto estava mal humorado dizia: "vai ser jornalista política? Vai ficar em Brasília produzindo falsas notícias ou vai fazer o mesmo jogo que “eles”?" Eu, para provocar, respondia: "não. Vou ser colunista social!"
Ele não deixava barato: "Mas o panorama político hoje não tem graça nenhuma!!” E não tinha mesmo...
Para mim ele era um comunista disfarçado, que se dizia de direita porque era medroso demais para lutar contra o regime. Mas ele era simpatizante do extinto PRONA (Partido da Reedificação da Ordem Nacional) e até hoje vota no mesmo partido: PTB. Ele me ensinou isto também: “Não vote em um indivíduo, vote em um partido." E assim eu o fiz: votei no mesmo partido a vida inteira e nunca me arrependi disso, pois foi com esse conselho que aprendi que política é algo coletivo, nunca individual!
Enfim, ele era de direita. Talvez por nostalgia, talvez para agradar meu bisavô que era era militar ou simplesmente porque já era tarde demais para ser um rebelde...Me recordo que quando Tancredo Neves morreu, meu pai foi até meu quarto, me acordou falando baixinho: “Filha, o presidente morreu." Eu chorei. E meu pai também.
Passada a rebeldia da adolescência, ficávamos discutindo política no jantar e quanto mais eu discordava, mais ele gostava... Ao entrar na faculdade me filiei a um partido político (de esquerda, claro) e sempre que eu ia às reuniões, mesmo quando acabavam muito tarde, ele ficava acordado me esperando para conversarmos e eu tinha que contar com detalhes os tópicos dos encontros. Por vezes eu, na mais inocente das teorias de conspiração, imaginava que ele era um desses generais do regime militar, secretamente escondido naquele apartamento em Santos, investigando as ações do partido para delatar meus “companheiros”.
Até que um dia a esquerda ganhou as eleições e ele, pela 1ª vez, disse: “já era a hora de chegar a vez de vocês... Agora é o momento de provar que podem fazer a diferença.” Não sei se fez tanta diferença como ele esperava, mas sinto sinceramente que algo mudou (pra melhor) e só essa sensação de estar inserida nesse momento de transição já valeu muito a pena.
Eu me desinteressei da política, mas aprendi muitíssimo nesse tempo “politizado” da minha história. Estou mais flexível, mais analítica, pois os anos trazem algumas lições também. Não preciso e não concordo mais com o radicalismo, mas exijo seriedade ao se fazer política.
Ainda tenho esperança. Esperança de que teremos pessoas no poder que levem isso a sério de verdade. Pessoas realmente comprometidas com a vida pública e que consigam diminuir consideravelmente a cota de milhões de ignorantes políticos que têm a obrigação de votar em todas as eleições.
Naquele dia de 2003 eu e meu pai assistimos a posse do candidato de Esquerda.E meu pai estava feliz. Foi quando percebi que, durante todos aqueles anos, ele só queria o que todos nós esperamos: atitude.
Parece clichê, mas está nossas mãos fazer um Brasil melhor! VOTEM CERTO!